sábado, 30 de janeiro de 2010

Contrastes Stop

1.ENQUADRAMENTO
Trabalhar a invisibilidade do Stop. O que está escondido?

O STOP surge (1982) inicialmente como um espaço comercial que com o passar dos anos não consegue obter grande sucesso. Já na falência e no abandono, este é reaproveitado por uma grande variedade de bandas, com diferentes expressões visuais e artísticas, como espaço de ensaio musical.
De uma forma mais ou menos desordenada as bandas vão se acumulando e consequentemente surge a coexistência de diferentes tribos que aumentam os contrastes existentes com espaço.

Logo após uma primeira visita, o espectador e utilizador do espaço depara-se com aspectos marcantes, uns mais positivos e outros mais negativos, mas que na verdade são a realidade do STOP. Neste local pode ser encontrado o sentido de responsabilidade dos grupos, mas de uma forma individual que marca ainda mais a sensação de clandestinidade em contraste com a liberdade das diferentes expressões musicais. São aspectos como estes que tornam o STOP um espaço único, sendo ao longo dos últimos anos o principal local de incorporação da historia da música urbana do Porto.

Com as poucas visitas realizadas já foi possível retirar as seguintes ilações:
A música tal como acontece com a arte é uma criação das sociedades humanas que constrói um conceito próprio de comunicação e interroga crenças e costumes, transgride e reforça valores partilhados e traços de identidade, bem como modas e manias. Funciona muitas vezes como um barómetro da sociedade, reflectindo e traduzindo as diversas faces do mundo ou inventando novas perspectivas.

Geralmente, acompanha os acontecimentos do seu tempo, mesmo quando parece refugiar-se no passado, na fantasia ou no idílico, ou até quando cria novas perspectivas de futuro. Cada música é como uma transfiguração da vida, comentando-a. Existe uma narrativa que transmite informações e questionam aspectos de ordem social e politica ou simplesmente contam uma história pessoal. Certamente, seria possível contar a história da humanidade através dos diversos documentos e informação musical que existe. A presença da música na sociedade manifesta-se também através do rasto que vai deixando para memória futura. Ao conhecimento desse “rasto” pode-se chamar cultura.

Para além do valor documental que estes objectos contem por estarem repletos de informação, são também recordações por vezes emotivas de vivências, o símbolo e prova de uma história ou sentimento que existiu. Por exemplo a capa de um vinil ou CD, um cartaz ou t-shirt de um concerto, a letra de uma música, um festival, ou até um estúdio podem ser um concentrado onde cabe o estilo de uma “escola” ou época, uma imagem de marca, um símbolo, a estética de um momento histórico, uma ideia de arte e uma estratégia de comunicação com o público.

A preservação dos espólios musicais é um aspecto fundamental na luta contra o efémero e o esquecimento – olhar estes objectos musicais provoca um exercício de reconstituição. As infra-estruturas e acontecimentos que recebem ou preservam estes espólios possibilitam a difusão e preservação cultural de uma forma de expressão da sociedade ou época. Neste ponto o CCSTOP, apresenta-se como uma estrutura importante de produção e conservação de importantes documentos culturais.

A Música tem uma divulgação cada vez mais mediática, como sendo um “produto” cultural, sentimental, revivalista, clandestino, contemporâneo, tradicional, extremista…existem estilos de música para todos os gostos, feitios e estados de espírito.

Se a música se encontra em tão diversos lugares e sobre determinadas formas de expressão é porque nenhuma comunidade pode viver sem ela, é uma prática que alimenta o imaginário, liberta e torna o individuo mais humano. Por isso a variedade de manifestações musicais presenciadas no Stop é uma mais valia para a cultura e para o país, seria uma perda enorme se isso se perdesse, daí achar fundamental levantar a imagem do Stop face ao público exterior a ele, realçando a sua verdadeira realidade.



2.OBJECTIVOS
Criar dispositivos capazes de transmitir a realidade do STOP.

Pretende-se de uma forma mais ou menos documental, mostrar ao público a realidade do STOP, a verdade invisível. Assim o trabalho incidirá sobre a perspectiva de conhecer o STOP (a realidade que tem dizer), fixando uma memória para este.

Parece importante que as pessoas conheçam que, por detrás daquelas portas fechadas, paredes destruídas e corredores desertos existe vida, e através da imaginação e talento surge a criação de algo tão interessante como a música.

Entrar no mundo dos músicos e documentar através de imagens marcantes os fortes contrastes do STOP. Tendo em conta o contexto, pretende-se uma intervenção que origine a melhoria do conhecimento e imagem do STOP.

A recolha de imagens e colocação de cartazes pela cidade tem como principais objectivos: transmitir a essência e auto expressão do espaço em contraste com as linguagens expressivas, tendo em conta a sua identidade versos a relação social de forma a criar pontos de diálogo. Consequentemente a melhoria da imagem exterior do STOP e a criação de uma memória futura que seja transmitida para a população e entre elementos das diferentes bandas.


3.CONTEÚDOS
Traduzir o Stop através de conceitos opostos.


Sendo o STOP um lugar de contrastes, pretende-se explorar o fascínio nato das pessoas pelo enigmático. “Os lados opostos atraem-se”. O objectivo é trabalhar expressões tão antagónicas como: a austeridade e a festa; o silêncio e o ruído; queixume e riso; ordem e caos; quaresma e carnaval; on e off; in e out; luz e escuridão; velho e novo.

Através destes conceitos ambiciona-se levar o público a ficar curioso em frequentar e descobrir as particularidades do STOP, tendo como metodologia uma intervenção no meio social do espaço STOP, fazendo uma aproximação à realidade social eliminando ou atenuando pontos de preconceito.

Pretende-se tirar partido do facto da imagem ter o potencial de construir ou transformar a realidade social, tendo por exemplo a caso Benetton, no qual realidades dramáticas ou questões sociais são mediatizadas ao serviço de objectivos comerciais, coloca entre outras, questões de reconfiguração do estatuto público dessas realidades, a partir do momento em que são mediatizadas.

No caso do CCStop o objectivo não será intrinsecamente comercial, mas sim social e cultural, mas se dai prover um maior desenvolvimento económico do Stop será uma mais valia. Fundamentalmente, interessa que o conteúdo do poster reconfigure a perspectiva que o público exterior tem do Stop.
Aqui, o conceito de oposto seria trabalhado por forma a criar um equilíbrio visual baseado nas leis da simetria, quase que dividindo o cartaz em duas partes, distribuindo o peso simetricamente em relação a um eixo vertical imaginário: de um lado a escuridão do outro a luz.
Será importante ter em conta os valores cromáticos das imagens obtidas, tirando partido da simbologia das cores e do peso das manchas.

Outro aspecto importante é o enquadramento dos conteúdos, este deverá ser de tal forma envolvente, que o receptor, pela sua posição relativamente ao painel, se sinta a participar ou dentro da situação.


4.CONCRETIZAÇÃO
(Cartaz, biblioteca de imagens)

Estas expressões serão trabalhadas através da imagem fixa, e representadas em cartazes que se direccionam à população envolvente e a zona urbana do Porto, divulgando o STOP como um espaço de interesse cultural. Estes suportes devem estar localizados em pontos fundamentais da cidade com maior afluência de população.

Para além do cartaz as imagens recolhidas poderão ser acrescentadas numa biblioteca de imagens criada no site POSTSTOP, devidamente identificadas e separadas por categorias: luz/escuridão; austeridade/festa; off/on… Este parece ser hoje o meio mais acessível e rápido de comunicar e divulgar informação com pessoas de diferentes locais, e por isso um meio importante para divulgação do STOP.

Sobre as imagens existirá uma caixa de diálogo onde os utilizadores do site poderão comentar as imagens e contar as histórias por detrás delas. O utilizador poderá ainda acrescentar mais imagens ou categorias relacionadas e assim criar um “diário” do STOP.

Este projecto deverá ser desenvolvido de forma estruturada tendo em conta alguns limites, de forma a não perturbar o real funcionamento do espaço e para não deturpar a essência do espaço.

Antes da aplicação em qualquer suporte, no caso cartaz e site, é necessário entrar em contacto com todos os “habitantes” e utilizadores do espaço (bandas e comerciantes) para fazer um levantamento de imagens, histórias e opiniões.

As visitas a este local serão fundamentais para a realização deste projecto, já que permite analisar e desenvolver pontos importantes, relativamente ao papel do design de comunicação num espaço como o CCSTOP.

Em primeiro lugar, sendo que a realidade do STOP é humana e social é importante tentar perceber minimamente aspectos relacionadas com questões sociais fazendo no entanto uma análise centrada na imagem do espaço.

É por isso importante uma aproximação ao contexto do local, ao espaço em si, e aos seus intervenientes, facilitando desta forma a recolha de dados, neste caso os opostos existentes no CCSTOP, produzindo objectos visuais ( fotografia e cartaz ).

A captura destes objectos, implica um conjunto de procedimentos e de meios técnicos: antes de mais analisar e definir as condições de recolha, questões como a luminosidade, as dimensões, o espaço e os seus obstáculos e os meios captura apropriados para o local e tipologia das imagens. Mais vale prevenir, levar mais pilhas ou até uma máquina fotográfica ou cartão extra pois não se sabe se haverá uma segunda oportunidade para captar aquele momento especifico. Importa que as imagens possuam boa qualidade e nitidez, a não ser que seja propositado, pois este aspecto será posto em evidencia na montagem do poster que é o produto final.

Nestes objectos visuais pretende-se reunir imagens do espaço direccionando a objectiva para os pequenos pormenores que fazem a diferença, captar a intimidade e euforia de um ensaio bem como os sentimentos e emoções. A recolha deverá ser o mais variada possível para tentar descobrir e trabalhar os opostos do espaço.

Segue-se uma fase de análise, onde todo o material recolhido deve ser trabalhado e sintetizado, retirando apenas essência do conhecimento adquirido. Nesta fase entra também a criatividade e a experimentação, tendo em conta os limites, dificuldades e a sua funcionalidade.


4.1 Poster

A escolha do poster como suporte, reside no seu valor ao longo dos tempos como documento de informação futura, mas também na sua forte ligação com o mundo da música e do espectáculo. Este suporte apresenta características especificas com um forte teor e intermediação de informação. Existem portanto vários factores com necessidade de análise, como por exemplo a ideia de série, a escala e mesmo o suporte, bem como os aspectos da sua distribuição e tudo o que isso implicaria.

Uma das questões postas é como se poderá intervir com este suporte tendo em conta o estatuto que lhe é dado hoje em dia e como é lido.

Quase desde a sua criação o cartaz invade as cidades seduzindo a população, impondo o seu ritmo acelerado de informações não solicitadas. Aparentemente, o cartaz, ao mudar a paisagem das cidades e o ritmo de consumo das pessoas que habitavam os centros urbanos, possuí, por si só, um carácter transgressor.

Hoje, numa época em que a quantidade de informação lançada ao público é imensa, existe também o aumento da veiculação de propaganda sobre produtos muitas vezes com pouca ou nenhuma utilidade, em uma quantidade maior de veículos, além da ocupação de áreas ainda maiores, ultrapassando os muros das cidades e criando suportes específicos para aumentar o poder de influenciar as sociedades. Não é que o público seja facilmente manipulável! Mas porque, os meios empregues são dispostos de forma minuciosa e possuem um código bem estruturado, o que torna possível atingir o público de forma rápida e eficiente.

Abraham Moles lembra que vivemos num universo onde as imagens construídas pelo homem formam um mundo exterior que se construiu à nossa volta e que constitui a cultura, sendo que a civilização contemporânea constitui uma civilização da imagem. Vivemos num mundo de imagens onde o cartaz tal como a fotografia, o jornal, a televisão, o cinema e as novas tecnologias electrónicas acabam por determinar grande parte das relações na vida social, chegando, por vezes, a modificar o ambiente público. Muitas das vezes este suporte adapta-se ao seu target, por exemplo aos condutores, de forma a que sejam facilmente vistos por eles, embora algumas vezes isso possa prejudicar a leitura de quem circula a pé.

O cartaz foi, e continua a ser, o meio gráfico mais adequado para a experimentação. A sua variedade de formatos e recortes, o facto de ser pensado para alcançar também quem não está tão perto da peça e a capacidade de distribuir a informação de forma rápida, fez com que até hoje, possua um papel importante, não apenas para a publicidade, mas para veiculação de qualquer acção, causa ou ideia.

Embora o cartaz seja um meio de comunicação de massa, ele faz mais do que divulgar produtos ou espectáculos de entretenimento, este é também um veículo capaz de registrar os movimentos e acontecimentos do seu tempo, congelando reflexos da sociedade em constantemente movimento.
Segundo Moles “O cartaz como mensagem da sociedade para o indivíduo não é estática; pela sua repetição em múltiplas cópias postas em diferentes lugares, o cartaz se decalca, pouco a pouco no cérebro dos membros da sociedade para aí se constituir num elemento da cultura.”

Assim, o cartaz passa também por um desgaste do olhar, que faz com que seu valor estético se modifique e perca força a partir do momento em que é compreendida a sua mensagem, mas também “constrói slogans e estereótipos que se entranham na cultura individual adquirindo autonomia independentemente do seu assunto.

Hoje os cartazes não ocupam apenas os muros da cidade; estão em todo lugar e actuam de diferentes formas sobre a sociedade. É por isso importante entender o que é o cartaz, qual a sua principal função, bem como as cores, textos, formato, corte, acabamento, técnicas reprodução e ambiente de fixação utilizados.
Por exemplo, agora é possível produzir cartazes de forma mais barata, principalmente por meio de serigrafia, como os cartazes produzidos durante a revolta estudantil de 1968 em Paris ou contra a guerra do Vietname.

A função social do cartaz, então, não termina na comunicação ou no registro dos hábitos de consumo de uma sociedade, mas permite também que se possa ter acesso a uma visão de mundo que estaria reflectida nas escolhas estéticas registradas no design de cada lugar, suas influências, ideias e cultura. A natureza da imagem pode variar segundo os códigos e as diferenças culturais e ter diferentes significados, inclusive a cada época.

Quando se pensa no que é uma imagem, encontram-se vários tipos e possibilidades : a imagem pictórica, a fotografia, os logótipos, os cartazes, o cinema, a televisão, as imagens mentais, que, em sua maior parte, são produzidas pelo homem principalmente pela necessidade de registrar, preservar, reproduzir e identificar pessoas, lugares, objectos ou classes de dados visuais . Dentro desse contexto de imagens variadas, a dimensão simbólica tem papel importante, pois, como afirma Berger, “nunca olhamos para uma coisa apenas; estamos sempre olhando para a relação entre as coisas e nós mesmos” , e se as imagens são símbolos, se são produzidas como tal, isso significa que podem ser encaradas como linguagem e, consequentemente, ter seus códigos desvendados.

Uma peça gráfica possui códigos que precisam ser identificados pelo receptor, do mesmo modo que na linguagem falada ou escrita. Um cartaz é uma peça completa que, na maior parte das vezes, é composta por texto e imagem; esse conjunto de elementos formará uma peça que será interpretada não através de cada elemento em separado, mas como um só conjunto.


Referências
_Berger, John; Modos de ver, colecção arte e comunicação, edições 70, Lisboa
_ Dias Suzana, Lage Alexandra, Desígnio: Teoria do Design -Parte2, Porto Editora, Porto